terça-feira, 17 de maio de 2011

O TEMPO QUE HÁ EM MIM

Marilurdes Martins Campezi - Lula

                    Há um tempo em mim que retrata meus pés em busca de aventuras. Fugi de casa aos seis anos e senti uma liberdade nunca mais sentida. Ao ser resgatada e conduzida de volta, guardei aqui dentro o inusitado momento em que fui livre.

                   Meu tempo brincou comigo nas cirandas das danças, do pega-pega, do esconde-esconde; também dos recreios escolares ele se esmerou em depositar lembranças.

                   Outro tempo está nas memórias de meus olhos e de meus ouvidos que se deslumbraram com os personagens circenses: palhaços, malabaristas, domadores e até a charanga um tanto desafinada. Tudo daquele mundo em meu mundo está.

                   Em meu coração existe um tempo em que amores ali encontraram abrigo. São aqueles amores infantis, adolescentes e adultos que acontecem de forma imprevista e nos modificam para sempre. As pessoas que estiveram e que estão comigo, entraram como amores, mas às vezes apenas como visitas para o café.

                   O tempo das descobertas abriu minha mente e despertou minha curiosidade para o interessante: coisas sensatas e insensatas que se instalaram em mim sem pedir licença e aqui ficarão. Ainda bem que o belo fez companhia àquelas coisas.

                   Trago comigo os tempos da alegria e da tristeza, da certeza e do desespero, da decisão e da dúvida. Vieram com todas as suas tralhas, seus frangalhos ou suas joias.

                   O tempo do orgulho continua suas visitas periódicas, mas as vaidades também fazem parte de minha construção. Enquanto não as dispo de todo, ficam por aqui, alimentando meu ego contra as verdades de ser humana.

                   Eu sou o tempo que está em mim, sem opção de esquecimento. A felicidade do hoje colou-se ao meu espírito como o belo musgo verde ao tijolo úmido ou à árvore exausta de tanta chuva.

                   Nada posso apagar. Nada deve ser apagado. Sou meus passos dentro do tempo a mim doado, deixando as marcas da travessia.

                   E a vida impregnou-se desse tempo dentro do meu ser, em cada milésimo de segundo vivido, tal qual a garoa impregna o solo fofo sobre o qual se derrama.

                   Por tudo isso, o tempo sou eu. Construí-me inexoravelmente. E assim como não sei quando foi o início dessa viagem do tempo, também não sei quando será o fim.

                 Estou no meu porto de felicidade com a bagagem que o tempo carregou para mim, reconhecendo-me em todos os momentos que me permitiram e me permitem viver.

                  E houve um tempo em que procurei Deus. Peregrinei por templos de estratificados conceitos e por outros modernizados pelo homem em busca da verdade. Nestes, os conceitos eram individualizados, cada um com o rótulo salvador das ideias cristãs. Então notei que a chave não estava no tempo nem no templo e sim em mim. Assim, entrei em uma casa para me buscar e de lá estou tentando sair para os outros seres.

                 O tempo de meu corpo está se encaminhando para meu limite, mas o da minha alma ainda correrá muito por aí. É uma certeza que só o tempo me dá: a eternidade.

Marilurdes Martins Campezi é escritora, membro da Academia Araçatubense de Letras (AAL) e da União Brasileira de Escritores (UBE).

terça-feira, 10 de maio de 2011

Palavras, estranha potência, a vossa!

Antonio Luceni

Tudo que pensamos, imaginamos, projetamos e fazemos é por meio da palavra. Nosso pensamento não é feito de uma substância mágica que de modo também sobrenatural é encaminhado. Não. Antes, tudo que realizamos é por meio da palavra.

Quando falamos (palavras): “Como é fulano?”, obtemos como resposta (palavras), por exemplo: “Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.”

Se quisermos retomar o passado e vivenciar este ou aquele momento de nossa vida iremos fazê-lo por meio da palavra: “Oh! que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!".

Do mesmo modo, todos nossos planos futuros estão sob o domínio da palavra: “Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei”.

As grandes e pequenas histórias da humanidade estão registradas por meio da palavra: O Pentateuco, atribuído a Moisés; Ilíada e Odisseia, de Homero; Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões e Macunaíma, de Mário de Andrade são alguns exemplos de (auto)identificação do povo por meio de seu repertório escrito e, especificamente nos casos ilustrados acima, estéticos, de ficção.

Tendo em vista o exposto antes e acreditando que nossa autoimagem é constituída, em partes, pela relação que mantemos com as palavras, algumas questões são necessárias, entre as quais: Quais palavras fazem parte de nosso repertório como ser humano?

Quando nos referimos a “nosso repertório” estamos pensando na perspectiva de acordo com nossa faixa etária: se criança, se jovem, se adulto, se idoso. Nesse sentido, para cada fase de nossa vida, nossa relação com as palavras também é modificada e, deveria, de acordo como passar dos anos, ser cada vez mais inovadora, inventiva, madura, sem preconceitos.

Retomando a nossa própria formação, as experiências que tivemos com leitura e com o livro, os autores e obras que conhecemos, os livros de que mais gostamos, aqueles que mexeram conosco, que nos pegaram no primeiro parágrafo...

A partir de nossas leituras diárias, as palavras com as quais nos identificamos diariamente, quais elegemos para fazerem parte de nosso vocabulário, do nosso “falar difícil” até o nosso falar mais cotidiano, mais solto, sem preocupações formais.

Se adultos, com um repertório de vida e de palavras mais amadurecido, mais adequado para cada uma das situações. No dizer de Jorge Larrosa Bondía, “as palavras produzem sentido, criam realidade e (...) funcionam como potentes mecanismos de subjetivação. Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente “racionar” ou “calcular” ou “argumentar”, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece”.

Por essa razão quando dizemos para alguém “Eu te amo” isso deve estar cheio de sentido de verdade; quando falamos “Deus o abençoe” que seja tudo isso que entendemos e desejamos por “Deus” e “benção”; assim como quando pensarmos em “desgraçado” ou “amaldiçoado” compreendamos, antes, que sentimentos e sensações estas palavras despertarão no atingido por elas.

*Adaptação a partir de um artigo escrito pelo autor sob o mesmo título, disponível na íntegra em www.antonioluceni.blogspot.com

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, Diretor da União Brasileira de Escritores – UBE.

terça-feira, 3 de maio de 2011

AS ACADEMIAS

Cecília Ferreira

Nos arredores da cidade de Atenas foi fundada por Platão a escola que ocupava um jardim banhado por fontes. De forma que as Academias (em grego com K, e em latim com C), sejam estas de letras, ciências ou artes, foram para sempre assim nomeadas em homenagem ao herói Akademus.

Entre trezentos e quatrocentos a.C., Platão teria formado a escola grega de filosofia. Poeticamente, o lugar, que ainda existe, era na época um horto de oliveiras, e o filósofo teria adquirido o terreno. Alguns elementos definiam a academia de forma diversa das demais, que conciliava as atividades didáticas com a especulação filosófica, num processo conhecido como maiêutica. Dialético e pedagógico o processo socrático multiplicava as perguntas para buscar por indução a verdade.

Nos dias de hoje a distinção entre a teoria e a prática é maior do que para um filósofo grego; mas por outro lado a escola platônica não possuía fins lucrativos, ao contrário do que sucedia com escolas sofistas mais técnicas e comprometidas com a eficácia da argumentação política ou jurídica.

Talvez a filosofia de uma academia gratuita em área particular tenha sido somente um mecanismo de defesa da própria vida. Afinal, Sócrates, de quem Platão fora discípulo, havia sido condenado à morte por não aceitar os deuses reconhecidos pelo Estado, por introduzir deuses novos, e por corromper a juventude que arrebanhava em praça pública. Bom, não é de hoje que o Estado se mete onde não é chamado quando se trata de temer a perda do próprio poder.

Então, o jardim de Akademos era o protótipo mítico dos paraísos terrenos: um mundo vegetal que se autorregenera, por oposição à pedra da cidade e às suas ruínas. Ruínas morais, físicas e intelectuais. Daí a ilusão da imortalidade intelectual oriunda de se pertencer a alguma academia: imortalidade construída sobre a morte de Sócrates. E, como o jardim por sua distância exigia o esforço pessoal do deslocamento do aluno, que só por vontade própria frequentaria o interior daquelas muralhas particulares às quais só se ingressava por meio de uma estreita porta, Platão se livrava de possíveis acusações e de condenação à morte como ocorreu com Sócrates.

Esta primeira Academia, que ao contrário das academias reais, criadas a partir do século XVII, é uma academia espontânea, surge da vontade do poder civil e não do poder político, e, ao menos nisto, se parece com a nossa Academia Araçatubense de Letras.

Uma Academia de Letras, na atualidade, não deveria ser painel de autopropaganda por intermédio de se valer de figuras externas ao seu meio para se promover diante de uma sociedade voltada para o imediatismo do espetáculo da fama alheia (como tem feito alguma Academia mais notória deste país).

Por outro lado, as academias, para valerem-se honestamente da prerrogativa de usar o título que Platão emprestou às escolas que pretendem avançar no estudo e formação das ciências, letras, e/ou artes não devem usar critérios excludentes, principalmente se este for financeiro; muito menos se limitar a julgar-se superior às modernidades que o mundo atual apresenta em novas mídias diante daqueles que se dedicando a ampliar e valorizar suas capacidades artísticas pessoais desejem ingressar em tais academias.

Porque a Academia de Platão foi como raiz: Resistência ou Inexistência. Nesse sentido as atuais caminham claramente para a morte. Umas por escolhas pouco ligadas aos seus sobrenomes (seja letras, ciências, filosofia e/ou artes), outras por não se modernizarem a ponto de aceitar as novas mídias como possibilidade de grimpo de joias verdadeiras e já bastante bem lapidadas (porque sem dúvida as há).

Aqui finaliza Platão: “Os males não cessarão para os humanos, antes que a raça dos puros e autênticos filósofos chegue ao poder, ou antes, que os chefes das cidades, por uma divina graça, ponham-se a filosofar verdadeiramente.”

E eu finalizo com Rui Barbosa: “O que preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.
 
Cecília Ferreira é jornalista e escritora, membro da Academia Araçatubense de Letras (AAL) e da União Brasileira de Escritores (UBE).

terça-feira, 26 de abril de 2011

MEU BRINQUEDO PREDILETO


Antonio Luceni


Conversando com minha amiga Wanilda Borghi algumas semanas atrás, falávamos sobre os apegos da vida. Dizia a ela que cada um de nós elege nesse percurso da vida alguma coisa pra se agarrar. Na infância temos um ursinho de pelúcia, um “cheirinho” (fralda ou pano velho que ficamos cheirando para dormir, daí o nome carinhoso), uma camiseta ou sapatos prediletos...

Já na adolescência, os brinquedos crescem conosco e aí partimos pra coisas mais desafiadoras que variam desde skates e bikes com suas manobras radicais até os proibidos percursos de carros, motos e jet-skis em ranchos, fazendas ou becos escuros e desabitados da vida.

Quando adultos já temos acumuladas tantas coisas que aí fica difícil citar o que quer que seja. Mas vá lá, arrisquemos alguns: casas, carros, viagens, jóias, festas etc., etc., etc... E queremos mais? Sim, queremos.

Aí o melhor da conversa. Nós dois dizíamos ter escolhido as artes para serem nossos “brinquedos prediletos”. Ela formada em piano e escritora, traduz a sua sensibilidade e delicadeza (porque é uma pessoa delicada, inteligente e simples) em composições que estão por várias partes de Araçatuba. Eu, com minha dedicação às letras, no ofício de escritor, às cores, em minha inclinação para as artes plásticas e às formas e cores, agora no curso de arquitetura e urbanismo.

Cada um de nós elege na vida algo para o qual irá dedicar grande parte de sua energia. Quando optamos pelas artes (a literatura, a pintura, o cinema, a arquitetura, a música, o teatro, a dança ou qualquer outra expressão artística) encontramos um porto seguro para suportarmos a vida. Sim, porque a vida só é possível quando nos “distraímos” com algo e não ficamos pensando muito nela.

Ao mesmo tempo, quando os elegemos coisas materiais, palpáveis demais nunca estamos satisfeitos, já que queremos abraçar tudo, acumulando coisas, e mais coisas, e mais coisas... E pra onde vai tudo isso no final? Quantas gavetas serão necessárias para guardar tudo? Será que teremos flanela e álcool suficientes para manter tudo isso limpo?

Gosto do dizer do poeta José Paulo Paes quando afirma que “palavras são como brinquedo, só que com uma diferença: quanto mais a gente brinca, mais elas se renovam”. E não é assim? Quanto mais nos relacionamos com as palavras, mais possibilidades encontramos nelas, mais fecundas elas se mostram, mais infinitas são as suas combinações.

Já carro, casa, xícara e televisão, a cada dia ficam mais velhos, a cada dia estão se deteriorando mais. E os que deles dependem flertam com a angústia em ter que renová-los, trocá-los, reformá-los, repintá-los, reciclá-los, jogá-los fora, (mas nunca doá-los, dividi-los, emprestá-los... só que isso já é uma outra história).

Cada um elege seus brinquedos prediletos. Cada qual escolhe com o que se entreter. Cada um se “distrai” nessa vida da melhor forma que pode. Assim como as escolhas, também os resultados são diferentes para cada um de nós.

Eu escolhi as palavras, ressaltei as cores, abracei as formas para suportar essa vida. Estou feliz com elas e, penso, elas estão felizes comigo. Nos relacionamos bem, sem nenhuma cobrança (isso é um pouco mentira... elas ficam me aporrinhando para saírem perfeitas, se materializarem da melhor forma possível). Por elas não preciso pagar impostos, não há a exigência de estarem “na moda”, não são efêmeras (ao menos gostaria que não o fossem, já que são (?!) arte)...

E você? Qual seu brinquedo predileto?

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, Diretor da União Brasileira de Escritores – UBE.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

VISITA DE BEIJA-FLOR - DIÁLOGO A TRÊS

Jordemo Zaneli Júnior

Olha lá, o Barack Obama! Está chegando ao Brasil! Olha o avião do cara, o carro blindado, que aparato! Quanta honra! O homem mais poderoso do mundo em solo brasileiro! Pera aí! Barack Hussein Obama, o 44º presidente dos EUA, o farol da humanidade, tomou posse alimentando as esperanças do mundo por dias melhores, pela paz mundial e mais oportunidades, o primeiro negro a ocupar o cargo de maior destaque do planeta! E eu com isso? O quê? Você não vê! O homem manda soltar uma bomba sobre nossas cabeças e você não tá nem aí? Ele não faz isso. O cara é do bem, veio assinar acordos comerciais importantes. Que nada, acordos que só beneficiam a eles, estão falidos, estão de olho nas nossas riquezas como estão de olho em tudo. Não, não é assim, para com essa visão pessimista, paranóica, do tempo da Guerra Fria, não vê a simpatia dele, ele vai lá na Cidade de Deus, vai visitar o Cristo, e a família, então, quanta gentileza, quanta atenção aos programas sociais da gente! Suas filhas, que meninas maravilhosas, você não vê isso? Eu confesso que tenho uma ponta de pena das filhas do Obama. Imaginem vocês, quanta tensão, medo de ataques e atentados terroristas... tendo que serem vigiadas o tempo todo, receberem treinamento para situações de emergência... Que nada! Eu tenho pena delas por terem que acompanhar os pais em compromissos formais que, para elas, deve ser muito chato. Visitar favelas, ver apresentação de capoeira... Que graça tem aquilo? Para! Que chato... elas bem que queriam ir à praia, tomar um sol, beber uma água de coco, ir ao show do Justin Bieber, com aquelas músicas maneras... Que ignorância a sua! Você é que não gosta de cultura popular. Vai me dizer que você gosta? Gostar não gosto, mas é importante para passarmos a cultura de geração para geração, se não tudo fica esquecido, coisas tão lindas perdidas por apelos comerciais e um jovenzinho bonitinho, que só fica repetindo “My baby, baby, baby oooh”. Tudo tem sua importância, sua beleza. O pragmatismo das pessoas está arremessando o mundo num abismo profundo. Praga... o quê? Como é mesmo o nome da menina?

Jordemo Zaneli Junior é advogado e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

O SOL DA MELHOR IDADE

Duxtei Vinhas Ítavo

A terceira idade é uma etapa da vida de um indivíduo. A época em que uma pessoa é considerada na fase da terceira idade varia conforme a cultura e desenvolvimento da sociedade em que vive. No Brasil, por exemplo, alguém é considerado de terceira idade a partir dos 60 anos. As pessoas também são chamadas de idosos. Com a chegada da terceira idade, alguns problemas de saúde passam a ser mais frequentes e, outros, incomuns nas fases de vida anteriores, começam a aparecer. A osteoporose e o Mal de Alzheimer são mais suscetíveis de acontecer nessa fase. As pessoas idosas têm habilidades regenerativas limitadas, mudanças físicas e emocionais que expõem a perigo a qualidade de vida dos idosos.

O envelhecimento é uma preocupação constante do homem em todos os tempos. Em nossa sociedade o homem rejeita o envelhecimento, não se conformando com a sua evidência. A terceira idade desperta sentimentos negativos como a piedade, o medo e o constrangimento.

A imortalidade e a eterna juventude são sonhos míticos do homem. A eterna juventude está sempre relacionada com a felicidade plena. A procura da fonte da juventude é assunto dos mais antigos escritos. A mitologia está repleta de seres imortais e a Bíblia cita com frequência seres de grande longevidade.

Em muitos lugares, principalmente nas cidades do interior do Brasil, a juventude, sem generalizar, considera velhas as pessoas acima de 60 anos. Muitos os chamam de “velhinhos”, “vovozinha”, “tiozinho”. Essa prática, com ranço de preconceito, acredito, tende a acabar, pois os idosos já deixaram, há tempos, a prática de ficarem só sentados, fazendo tricô ou crochê ou jogando dominó e baralho. Apesar dessas atividades serem benéficas para o cérebro.

Em nossa cidade existe um grupo de pessoas participantes da terceira idade que parece ter encontrado a “fonte da juventude”. Essas pessoas, as “vovozinhas”, os “tiozinhos”, dançam, correm, nadam, praticam uma grande variedade de esportes, participando de competições por várias cidades do estado de São Paulo, levando e honrando o nome de Araçatuba.

Nos próximos meses terão início os JORI, Jogos Regionais do Idoso, que serão realizados em várias cidades do nosso estado. Participaremos nos primeiros dias do mês de junho próximo, na cidade de Votuporanga. Muitos atletas estarão competindo nas diversas modalidades que fazem parte dos JORI. Neste ano teremos atletas que estarão iniciando sua participação em competições, entre ele o “Seu Manoel Ângelo”, de 81 anos e “Dona Conceição Vinhas” de 84 anos, representarão Araçatuba na corrida de 600 metros. Os dois atletas citados, com certeza, “correrão” como maratonistas impecáveis.

Aristóteles (filósofo grego) e Galeno (médico grego, 129-199 AD ) acreditavam que cada pessoa nascia com certa quantidade de calor interno que iria se dissipando com o passar dos anos, considerando então a terceira idade o período final desta dissipação de calor. Aristóteles (384-322 a.C., o mais influente filósofo do pensamento do mundo ocidental) sugeria o desenvolvimento de métodos que evitassem a perda de calor, o que prolongaria a vida, dando certo cunho científico ao problema.

As pessoas da terceira idade que praticam atividades físicas, esportes, leem têm um “sol” ainda bem quente dentro da alma, irradiando calor aos que vivem próximos. Ainda estamos quentes, nossa alma tem luz brilhante. O pulso ainda pulsa.

Duxtei Vinhas Ítavo e artista plástica, contadora de histórias e escritora, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O HOMEM QUE RI


Marilurdes Martins Campezi

Em um dia qualquer, ao ver em um quadro humorístico da televisão um ator caracterizando um personagem de um romance francês, lembrei-me de como me comovia sua situação: por um problema físico, seu rosto mostrava um sorriso constante e por isso era considerado um homem feio, conceito arbitrário utilizado até hoje por muitas pessoas para classificar o diferente do comum. Victor Hugo foi genial ao escrever essa história. Com um sorriso constante estampado em seu rosto, aquele homem sofreu preconceitos e tentou esconder-se até dos que mais amava. Dizem que este personagem inspirou o criador do Coringa, eterno inimigo de Batman.

E histórias como essa levaram-me a leituras mais sérias, desde os dez anos de idade. O interessante foi esse conhecimento de livros e autores chegarem até mim através das histórias em quadrinhos, mais especificamente por uma coleção de meu tio caçula, o Lico, cujas revistas eram denominadas “Edições Maravilhosas”. Ali eram reproduzidos os clássicos do romantismo e do realismo nacionais e estrangeiros.

Aqueles quadrinhos em branco e preto eram mágicos e minha infância saboreava os momentos de leitura, gulosamente, todas as tardes. Aquele mundo tão diferente para mim penetrava meu espaço e abria meus olhos e minha emoção para a vida.

E assim, as coleções que meu tio Lico comprava para seu deleite, sem que ele percebesse, preparavam-me para o prazer de ler.

Foram anos de intimidade com José de Alencar, Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, José Lins do Rego, Eça de Queirós, Victor Hugo, Edmond Rostand, Daniel Defoe e muitos outros.

Os desenhos dos quadrinhos mostravam-me cenas que mais tarde pude aperfeiçoar com a imaginação provocada pelas mesmas histórias, porém em livros sem imagens, selecionados entre bancos escolares: O Tronco do Ipê, A Pata da Gazela, Iracema, Dom Casmurro, A Moreninha, Menino de Engenho, Cyrano de Bergerac, Robinson Crusoe, A Ilha do Tesouro, O Homem que Ri, Os Miseráveis, O Médico e o Monstro, O Corcunda de Notre Dame, O Morro dos Ventos Uivantes, O Retrato de Dorian Gray e tantos outros que tornariam esta lista enfadonha, não fosse a sua importância.

Ao mesmo tempo, tinha contato com revistas infantis em quadrinhos, como Pato Donald e seus companheiros, Pernalonga, Bolinha e Luluzinha, o Fantasma, herói apaixonado por Diana, o Homem Borracha e o Homem Submarino, Capitão Marvel e o Jr., Superman, Batman e Robin, Homem Aranha. Todos foram os meus iniciadores no mundo dos quadrinhos e da leitura.

Conto-lhes esta experiência das leituras de minha infância para mostrar a muitos pais e educadores desavisados que ler é prazer, não é imposição. Cada qual tem um caminho e as histórias em quadrinhos pode ser um deles. O cuidado está em selecionar o que estará disponível para o futuro leitor de livros.

Assim, quando alguém me pergunta sobre leitura na internet ou nos livros, jornais, revistas, respondo com segurança: todos e muito mais!

Mas quanto à questão de seleção de assuntos adequados ao nível de idade, penso um pouco mais para responder.

Que tal começarmos por ler a vida?

Estamos no século XXI, quando os heróis são outros: jogos virtuais, praças de eletrônicos, filmagens com efeitos especiais, consumismo desenfreado, marcas famosas, artificialismo e mídia massacrante.

Desenvolver ou resgatar o hábito de ler a palavra escrita é mais que simplesmente folhear livros, jornais ou revistas. Antes de tudo é preciso exemplificar, viver lado a lado a leitura com a criança, disponibilizar material adequado e ter tempo. Como vê, é bem mais difícil... Além disso, cada um só dá o que tem para dar.

Mas uma coisa nos consola: em qualquer tempo o homem foi e sempre será sequioso de conhecimento, virtude que ninguém pode lhe roubar.

Marilurdes Martins Campezi é escritora, membro da Academia Araçatubense de Letras e da União Brasileira de Escritores – UBE.

quarta-feira, 30 de março de 2011

ADESÃO PARA COLETÂNEA "TANTAS PALAVRAS" PRORROGADA

A ADESÃO PARA PARTICIPAÇÃO DA COLETÂNEA DE CONTOS E CRÔNICAS "TANTAS PALAVRAS" FOI PRORROGADA ATÉ AGOSTO DE 2011. FAÇA SEU TEXTO E ENCAMINHE PARA O E-MAIL: aluceni@hotmail.com 

SE VOCÊ QUER PARTICIPAR, AINDA HÁ TEMPO. AJUDE DIVULGANDO PARA SEUS CONTATOS.
O que é?
Uma coletânea de contos e crônicas, com temática livre.
Quem pode participar?
Qualquer escritor, quer tenha ou não outros livros publicados. Aliás, a coletânea cumpre dois objetivos: (1º) divulgar textos literários de qualidade na forma impressa e (2º) oportunizar àqueles escritores que não têm condições de publicar uma obra solo, mas que querem ver seus textos impressos em forma de livro.
Qual o formato dos textos?
Os textos devem ser crônicas ou contos (em prosa, portanto), entre 2000 e 2500 caracteres, já contando com espaços (é preciso que se respeite esse número), em fonte Times New Roman, 12. Breve rodapé com currículo do escritor (máximo três linhas, sem foto).
Qual o valor do investimento?
Cada escritor poderá publicar um texto, no valor de R$ 50,00 (cinquenta reais), com direito a dois livros, (formato 18x25cm, capa colorida, miolo 1 cor).
Como devo proceder?
Os escritores interessados deverão encaminhar o texto para aluceni@hotmail.com, de acordo com os critérios propostos acima, até agosto de 2011 (prazo máximo para realizar o pagamento da participação). Caso resida fora de Araçatuba e queira participar, solicitar número de conta bancária para efetuar o depósito.


PARTICIPE E AJUDE DIVULGANDO!
Antonio Luceni
Diretor de Integração Regional - São Paulo/Noroeste - UBE

terça-feira, 29 de março de 2011

EU TENHO UM SONHO E NINGUÉM O TIRA DE MIM

Antonio Luceni

Minha mãe não lia para mim antes de eu dormir. Minhas professoras da escola primária não levavam livros para sala, nem tão pouco indicavam leituras para serem realizadas em casa. Bibliotecas? Se quer sei o endereço de alguma delas. Será que elas existem mesmo? (Talvez ainda sob aquele formato e administração de O nome da Rosa). Livraria, de verdade, que só vende livros, ou ao menos é cheia deles por todos os lados, somente tive acesso depois dos vinte anos.

E sou um livromaníaco!

E por que gosto dos livros? Por que gosto de ler? Acho que é um pouco daquela coisa que dizem sobre vocação. Cada um de nós tem certa inclinação para alguma coisa, mesmo que esta coisa não seja ensinada, estimulada ou presente em nossas vidas.

Sabe aquele cara que cozinha muito bem, coordena temperos e cores, compõe sabores, não se contenta com o arroz e feijão? Sabe aquele menino ou menina que dança extremamente bem, que tem um swing danado, encantando a todos com gestos e movimentos? Sabe aquela senhorinha que, depois de aposentada, depois que os filhos saíram de casa e que o marido já não “manda mais” nela descobre-se atriz, pintora, escritora...?

Pois é, essas coisas da vida que a gente não sabe muito bem como explicar e dizer, mas vivenciar apenas. Deixar o fluxo da naturalidade acontecer, como um rebento vindo ao mundo: natural, normal, assim como tinha que ser.

Monteiro Lobato costumava dizer que livro é como sobremesa: tem que ser posto debaixo do nariz do freguês. Essa ideia de sobremesa nos remete a muitas coisas, não é mesmo? Sobremesa é gostosura, sobremesa é doce, sobremesa é agradável ao paladar, faz bem à vista (quantas sobremesas são comidas primeiro pelos olhos!).

Meu primeiro livro, dado pelo meu pai, foi tirado do lixo de um grande shopping em São Paulo. Um livro besta, que ensinava fazer azeite de forma artesanal. Umas ilustrações igualmente desinteressantes, mas não conseguia me desgrudar dele. Foi amor a primeira vista. Lembro-me dormindo com ele ao lado do travesseiro, levando-o dentro de minha mochila para exibi-lo aos meus colegas de classe e todos, como eu, inebriados pelo encantamento daquele objeto mágico (ou seria “saboreados” com a sobremesa?).

Essas coisas, essas aí ditas acima, de as crianças se envolverem com livros, com a leitura, com a escrita e com as artes de modo geral não poderiam se constituir como uma exceção. Esse encontro com o livro, com a fantasia, com o maravilhoso deveria ser estimulado, propiciado de forma deliberada, descaradamente pelos adultos.

Ninguém poderia ficar sem poder ler um livro, viajar em suas páginas, vivenciar outros mundos, conhecer outras culturas e pessoas, imaginar-se vivendo nesta ou naquela situação, apropriar-se de vocabulários, experenciar sentimentos outros que só são possíveis por meio da fantasia, da obra de arte... por falta de oportunidades, por falta de bibliotecas, por ausência de livrarias, porque ganha pouco e precisa ter a sorte de achar um livro no lixo a partir do qual irá se encantar.

Quem dera possamos viver, ainda, um Brasil em que as pessoas possam morar dentro de livros, como sugerido pelo mestre-literato, aplainando sonhos, criando outros tantos, comungando (de comer mesmo) com o irmão de diferentes paladares, de saberes e sabores provenientes da depuração de poetas, romancistas, contistas, cronistas...

Certamente será um Brasil melhor. Não temos dúvida de que serão pessoas melhores, mais comprometidas, mais sensíveis umas com as outras, mais camaradas, mais companheiras, mais... mais... e mais...

Eu tenho esse sonho e ninguém o tira de mim: ver livros à mão cheia por todos os cantos do Brasil.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, Diretor de Integração Regional – São Paulo/Noroeste da União Brasileira de Escritores – UBE.

quarta-feira, 23 de março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

Morte e vida bolsa família



Hélio Consolaro



Fevereiro de 2011, em Araçatuba, na quadra da Escola Leonísia de Castro, assisti mais uma vez ao auto de natal de João Cabral de Mello Neto, Morte e Vida Severina. Trabalho do grupo Galeria4, alunos do Curso de Artes Cênicas da Unicamp.

Como eu já havia visto outras interpretações, dei aulas para vestibulandos sobre o livro, conhecia todas as palavras do texto.

Então, enquanto assistia à apresentação do grupo da Unicamp, fiquei me perguntando se todos entendiam o que viam e ouviam já que o grau de complexidade era maior devido ao alto nível artístico da apresentação.

Na verdade, não se entende uma obra de arte na primeira fruição e nem posso dizer que o meu nível de entendimento sobre a obra se esgotou. A cada leitura se aprende mais um pouco.

Assim, assistindo ao auto, fui me lembrando do jeito que eu fazia os alunos do ensino médio lerem “Morte e Vida Severina”. A TV Globo gravou o auto, obedecendo a todas as letras do texto cabralino. Assim, eu projetava a interpretação de Zelito Viana. Cada aluno devia ter o texto em mãos, acompanhando a projeção. Quando necessário, eu acionava a tecla “pause” e fazia minhas explicações.

É um auto porque tem caráter religioso e era apresentado de uma vez só, num ato só, gênero de origem medieval. Texto escrito em versos redondilhos maiores (7 sílabas poéticas, pertencente também à tradição medieval) de rimas sem um esquema regular, com repetições de palavras e de versos inteiros.

A obra possui 18 trechos divididos em duas partes: de 1 a 9 – a viagem de Severino até Recife; de 10 a 18, as experiências de Severino na capital. Nela, o autor apresenta o itinerário do retirante nordestino, que parte do sertão paraibano em direção ao litoral, em busca de sobrevivência.

Daí o nome: “Morte e Vida Severina” (e não “vida e morte”). O retirante foge da morte, encontra-a novamente na Zona da Mata, pois ausência de seca não é sinal de vida, mas a vida lhe sorri nas palavras do mestre carpina (José, pai do Menino Jesus). João Cabral antecipou-se à Teologia da Libertação, dando ao presépio uma interpretação política.

Segundo Cabral, Morte e Vida Severina “foi a coisa mais relaxada que escrevi.” E é por ela que ele é mais conhecido na literatura brasileira.

O texto foi uma encomenda de Maria Clara Machado, filha de Aníbal Machado. Ela leu, agradeceu, mas disse que não servia. Foi encenado pela primeira vez em 1954. E assim, o texto se tornou um espetáculo dos militantes da reforma agrária, antes de existir o MST. Disse Cabral: “Muita gente queria que, depois de cada espetáculo, eu subisse ao palco e gritasse: ‘Viva a reforma agrária!’ Recusei-me a fazer isso. Não faço teorias para consertar o Brasil, mas não me abstenho de retratar em poesia o que vejo e sinto”.

Vida severina, sinônimo de sofrida, comprada a retalhos. Vida cesta básica, vida bolsa família, sem direito em desistir dela.

Hélio Consolaro é professor, escritor e jornalista. Filiado à União Brasileira de Escritores – UBE.

Essência Volátil


Jordemo Zaneli Júnior
 
Durante o trajeto para o trabalho, Paulo César ouvia atentamente as notícias no rádio, tentando saber mais sobre o caso veiculado ontem, onde, furioso, um homem havia sequestrado a mãe de seus filhos na vã tentativa de fazê-la voltar para casa depois de abandonar anos de uma vida em comum.

Hoje, no lugar daquela notícia que despertara seu interesse, um estranho caso de um túnel que estava sendo cavado nas imediações de uma empresa de transportes de valores. Como faria para saciar seu desejo de informação?

Chegando ao trabalho foi comunicado que assistiriam a uma palestra sobre o perigo no manuseio de líquidos voláteis. O palestrante tomou como exemplo a principal propriedade da gasolina e sua facilidade de transformar-se rapidamente de líquido em vapor. A gasolina não é uma substância que se possa caracterizar por limites definidos na física ou na química – como se usam para descrever a água ou açúcar – porque ela é uma mistura volátil de hidrocarbono.

Assim que terminou a palestra, Paulo César ouviu seus colegas de trabalho comentar o quanto um determinado jornal persegue seu clube de futebol. Os erros de arbitragens contra a agremiação não existem, a favor são creditados com fraudes e favorecimentos. Uma única derrota já é motivo para crises internas e demissões do técnico e de jogadores irresponsáveis e anti-profissionais são procurados noitadas à fora pelo referido órgão de imprensa no intuito de forjar factóides. Paulo César lembrou que quando o time consegue uma vitória, tudo muda, até mesmo o dia fica claro, o céu de um azul anil varonil, o bosque do bairro brilha à luz do sol, os passarinhos fazem festa. O trânsito lento e caótico, a intolerância humana ficam muito mais fáceis de suportar.

Na volta para casa depois de um estafante dia de trabalho, tentava novamente ouvir a notícia que lhe interessava. Será que houve um final feliz? Ou mais cenas de sangue, suor e lágrimas? Ao contrário, o noticiário relatava as declarações do presidente do Banco Central, afirmando em entrevista que “as previsões do FMI que apontam uma retração na economia brasileira são voláteis e que o Brasil deve crescer acima da média mundial neste ano”. Paulo César pensou indignado: Que falta de compromisso com a informação. E os meus interesses pela notícia, como ficam?

Chegando a casa seu cachorro o estranhou. Oh amigão! Não me conhece mais? Disse ao animal. Será que errei de casa? Começou a sentir algo diferente no ambiente, uma aura carregada de maus pressentimentos. Sua mulher não estava neste mundo. Estava! (estava com outro na televisão, um cara sarado, barriga de tanquinho, cabelo loiros), os olhos da companheira brilhavam, sua respiração era ofegante. A mesa repleta de recipientes vazios, cheios de um nada insólito, humilhante, ultrajante. Paulo César olhou-se no espelho sua aparência cansada, os olhos fundos sem brilho, fixos em um nada, a barriguinha de chope, os cabelos e a barba não muito contribuíam com ele. Sem chances.

Os filhos estavam (não estavam), outros interesses, outro mundo, a figura carcomida de um nada vazio, que não inspirava pelo menos um por quê. A sombra de um passado de incertezas e uma louca corrida pelo novo corroíam as certezas, inchando cidades com cortiços e favelas, baixos salários, jornadas longas de trabalho, mudando radicalmente hábitos e valores, tudo a assombrar Paulo César, como um castigo por algum crime sentenciado por Dostoievski. A velocidade e sua força invisível varreram valores morais e religiosos, revelando um novo ser humano com outras crenças. No quarto uma fumaça empertigada.

A televisão, a grande companheira. Lá vou encontrar o que eu mais quero. Ao contrário, o noticiário relatava a história de um cara que roubava os donativos das vítimas da enchente que, agora, eram algozes a infernizar as autoridades. A tragédia era anunciada. E a notícia que interessava a Paulo César, não. Onde estou? Tudo é uma fraude, tudo parece ser e não ao mesmo tempo, não existe memória. Preciso ser mais volátil. Cansado, indignado resolveu beber para esquecer, chamou seu sobrinho residente agregado e pediu para comprar-lhe uma bebida no empório da rua, depois de muito insistir bradou: Você ainda não foi menino? O garoto respondeu: Eu já... vô lá tio.


Jordemo Zaneli Júnior é advogado e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.


quarta-feira, 16 de março de 2011

COLETÂNEA "TANTAS PALAVRAS..."

COLETÂNEA "TANTAS PALAVRAS..."



O que é?
Uma coletânea de textos de autores diversos, a partir dos gêneros contos e crônicas, com temática livre.

Quem pode participar?
Qualquer escritor, quer tenha ou não outros livros publicados. Aliás, a coletânea cumpre dois objetivos: (1º) divulgar textos literários de qualidade na forma impressa e (2º) oportunizar àqueles escritores que não têm condições de publicar uma obra solo, mas que querem ver seus textos impressos em forma de livro.

Qual o formato dos textos?
Os textos devem ser crônicas ou contos (em prosa, portanto), entre 2000 e 2500 caracteres, já contando com espaços (é preciso que se respeite esse número), em fonte Times New Roman, 12. Breve rodapé com currículo do escritor (máximo três linhas, sem foto).

Qual o valor do investimento?
Cada escritor poderá publicar um texto, no valor de R$ 50,00 (cinquenta reais), com direito a dois livros, (formato 18x25cm, capa colorida, miolo 1 cor).

Como devo proceder?
Os escritores interessados deverão encaminhar o texto para aluceni@hotmail.com, de acordo com os critérios propostos acima, até 30 de março de 2011 (prazo máximo para realizar o pagamento da participação). Caso resida fora de Araçatuba e queira participar, solicitar número de conta bancária para efetuar o depósito.

PARTICIPE E AJUDE DIVULGANDO!


Antonio Luceni
Diretor de Integração Regional - São Paulo/Noroeste - UBE

http://www.blogdaube.blogspot.com/

quarta-feira, 9 de março de 2011

ENTREVISTA PRA O PROGRAMA "CIDADE ABERTA"

TANTAS PALAVRAS... PARTICIPANTES

1. ANTONIO LUCENI DOS SANTOS - "Um leve amargo no final" - Araçatuba/SP
2. FRANCISCA DE CARVALHO MESSA - "Tempo, vento e amor" - Pederneiras/SP
3. FRANCISCO GREGÓRIO FILHO - "Heliete" - Rio Branco/AC
4. JOSÉ HAMILTON - "Véspera de natal" - Araçatuba/SP
5. MARIA LÚCIA TERRA - "Preconceito? Eu?" - Araçatuba/SP
6. REGINA BAPTISTA - "A cabine de comando" - São Joaquim da Barra/SP
7. MARIANICE NUCERA - "Olho por olho" - Araçatuba/SP
8. RAFAEL MOIA FILHO - Bauru/SP
9. SALETE MARINI - "Vida novela" - São Paulo/SP
10. JORDEMO ZANELI JÚNIOR - "A sogra Dona Esperança" - Buritama/SP
11. CARLOS ROBERTO FERRIANI - "Dó-mingo" - Ribeirão Preto/SP
12. ANTENOR ROSALINO - "O ser no mundo" - Araçatuba/SP
13. YARA REGINA FRANCO - "O mascate" - Araraquara/SP
14. WANILDA BORGHI - "Preito" - Araçatuba/SP
15. WANDYR ZAFALON - "Mergulhando nos mistérios" - Araçatuba/SP
16. ELDIR PAULO SCARPIM - "Natureza das emoções" - Birigui/SP
17. JOSÉ MARCOS TAVEIRA - "Blogueiro também é escritor" - Araçatuba/SP
18. JETTER MICHELLINE - "Tempo ao tempo" - Penápolis/SP
19. RODRIGO SANTIAGO - "Epitáfio" - Penápolis/SP
20. RITA LAVOYER - "A 5ª Estação" - Araçatuba/SP

STOP

Tito Damazo



“A Vida parou
Ou foi o automóvel?”

Carlos Drummond de Andrade


 
A bicicleta zunia ladeira abaixo. A cabeça, não. Esta, vento sem rumo, sambava por todos os cantos da vida.

Ainda se fosse época de eleição, nenhuma confiança mereciam, como insistia a maioria dos seus amigos. Não conseguia sentir no olhar, na face deles segundas intenções. Não falavam de políticos, não falavam de governos. Falavam da dura realidade de se viver na pobreza e na ignorância. Que era o que se passava com o povo do seu lugar.

Mais a mais, estava com eles Wanderley, em quem todo o mundo aprendera confiar. Médico honesto, atencioso, cumpridor do seu dever. Muitas vezes ia além do seu horário no postinho. Amigo, simples, jogava no time do bairro, com o qual ia, na carroceria do caminhão ou camionete, aos domingos. Ficava bom tempo no boteco, tomando umas cervejas com eles depois do jogo. Enquanto bebiam, entre uma brincadeira e outra, ele falava um bom tempo das muitas injustiças existentes contra os homens, as famílias dos trabalhadores.

Aqueles caras, quando iam com ele nas brincadeiras-dançantes, nas noites de sábado, promovidas pela associação dos amigos do bairro, nas quermesses da padroeira da paróquia, nalgum jogo de domingo, era gente boa como ele. Afinal, ele não ia levar com ele pro bairro nenhum vida torta, bagunceiro.

Aprendia. Levava a sério aquelas conversas. Já até ficava vez ou outra pensando naquilo tudo. As diferenças sociais muito grandes. O direito dos filhos de ir na escola como o filho dos outros. De não ter que ir trabalhar e não conseguindo assistir aula direito. De a saúde para eles todos, gente pobre, humilde, ser também boa, de confiança. A vida dos filhos tinha que ser melhor. Bendito o dia que conheceu o Wanderley e os amigos dele. O mundo passou a ficar mais claro. Se instruía. E sentia que eles também aprendiam muitas coisas com ele.

Dificuldade maior era o desemprego no momento. Mas não se atemorizava. A fome não bateria em sua porta. Tinha braço, força, saberia, com a graça de Deus, sempre desencavar alguns trocos. O pior ia passar. Desesperar era pior. Acreditava nele.

Opa! A bicicleta pinoteou. A roda passou por cima de um treco. Diminuiu a velocidade, mas a bicicleta ziguezagueava. O farol do carro apodando o outro! Porra! Vem em cima de mim o filho da puta! A calçada!...

O corpo explodiu contra o poste.

Ali, a família. Amigos sisudos contemplam-no que jazia no silêncio e indiferença definitivos. E a vida deles continuaria na mesma. A sua, que andava pensando nas mudanças, não mais.

O torpor da mulher era carregado de dor e desamparo. Não havia seguro. Não havia nenhum recurso. Justo agora, quando estava desempregado.

Naquele dia, os filhos não foram à escola. E ele não admitia que faltassem.

 
Tito Damazo é doutor em Letras e poeta, membro da União Brasileira de Escritores – UBE e da Academia Araçatubense de Letras – AAL.

quarta-feira, 2 de março de 2011

CELULAR CONFISCADO

Ana de Almeida dos Santos Zaher


Como é triste saber, ver e conferir que nem tudo termina com um final feliz. Ainda estou chocada ao ver pessoas tão bem instruídas, supostamente inteligentes, propagando uma liberdade que não têm.

No trabalho parecem poderosos chefões e na vida pessoal são uns covardes; tão covardes que, para manterem as aparências, sujeitam-se a serem puxados pela coleira. Sim, são verdadeiros cachorrinhos dirigidos ou por alguém ou pela própria covardia, em voarem livres.

Dizem-se livres, donos da própria vontade, quando na verdade, são marionetes nas mãos de outra pessoa.

Sabe, vendo esses exemplos, fico analisando a vida humana, suas virtudes, mas o que mais fica evidente é a pobreza de espírito, a miserável postura que elas adotam para as suas vidas.

E a liberdade, onde fica?

Elas sabem que a liberdade existe, gostariam de conhecê-la, de vivê-la, sabem onde ela está, mas não se dispõem a buscá-la. Coisa de quem se sujeita ao livre arbítrio, só que ao de outra pessoa. São dirigidas.

Em uma época moderna, ainda não vêem os separados com bons olhos. A orientação sexual ainda é objeto de crítica por parte de uma sociedade que não respeita o seu semelhante.

Sou a favor da família bem estruturada, assentada sobre o alicerce da moral e da ética, mas também penso na felicidade que, para muitos, não existe. Ocorre que ela existe e seria muito fácil consegui-la, tivessem coragem de buscá-la.

Vejo muitos fazendo terapia porque o amor acabou. Ocorre que ele não acaba, apenas migra e os covardes não têm coragem de acompanhá-lo. É o medo que possuem da sociedade. Vivem em uma jaula, como leões famintos.

Uma situação dessa só acaba em depressão e não há remédio para ela, a menos que a pessoa se disponha a curar-se e, no caso, indo atrás da liberdade que a fará feliz.

Recentemente um senhor relatou-me a sua história. Disse-me que fez bodas de ouro, deu uma festa para os amigos e, depois que todos foram embora, ele chorou. Sua alma gritou: bodas de bosta! Vinte anos de felicidade e o restante de sofrimento. Meus sonhos e desejos no baú foram guardados; no porão, foram trancados. Hoje, com mais de 60 anos, até meu celular foi confiscado.

Também confessou que há muito tempo adormece chorando, porque não teve coragem suficiente para mudar sua rota.

Agradeceu-me por ouvi-lo e seguiu sorrindo, dizendo que Deus foi generoso com ele, que fui o melhor presente. A menina dos seus olhos...

É, e eu fiquei ali, pensando no quanto perdemos tempo. Tempo que passa depressa demais.



Ana de Almeida dos Santos Zaher é escritora e poeta, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.