terça-feira, 12 de julho de 2011

ESCADAS

Ana de Almeida Santos Zaher*



Desde quando nascemos, a regra já existe, e querendo ou não, nós a seguiremos, não tem outra saída, não tem atalhos.

Terá sim uma montanha, na qual encontrará muitas escadas com vários degraus para você escolher, consciente que subira com cautela e caminhando.

Alguns na ânsia de chegar, se atrevem a correr. Mas existem coisas e fatos que realmente tem seu tempo. Como as flores, os frutos... E como nós humanos, que demora nove meses para nascer. E quando algo acontece antecipando o nascimento, choca a natureza.

Na vida, iniciando os nossos primeiros passos, a escalada sem rumo já começou. E assim seguimos de acordo, no caminho que nos foi mostrado.

Mas nada é eterno, não podemos mudar de vida, mas insatisfeitos sempre damos um jeitinho, e mudamos o percurso.

Chega-se o tempo do discernimento, nos sentimos presos e acorrentados, cresce o ego... E voamos em busca da liberdade.

Nos altos e baixos que acompanha a caminhada, não se pode pisar em falso, não há proteção.

Todos os atos e ações são registrados, em muitas mentes serão guardados, só serão extintos com a morte. Assim mesmo corremos o risco dos arquivos virem á tona, de alguma maneira.

Como as escadas, vamos nos deparar com degraus de tamanhos e espessuras diferentes. Subindo ou descendo o morro. A concentração será fundamental para chegar ao topo, sem algum aranhão.

Tarefa destinada a cada um, quase impossível, não há vitória sem luta, e não tem sabor chegar ileso, e não ter provado tudo. A questão é não fugir dos espinhos, e sim encontrar uma forma de passar por eles, com poucos ferimentos.

Diante das circunstâncias, viver é um risco e ser feliz é bom demais.

O medo de passar embaixo de escadas ainda existe e em grande número.

E olha que a queda não causaria muitos danos.

Observando o mundo que não para de girar. Vejo com muito pesar, que as pessoas se cansam com muita facilidade, desistem cedo.

A vida é cheia de surpresas, e alguns seres acabam seus dias, lamentando... Arrependidos por não ter tido a coragem necessária de pegar seu prêmio.

Não precisa ser um gênio, nem ter uma bola de cristal. Basta ser corajoso e tentar.

Sempre acreditar que obstáculos no alto ou embaixo vão existir em todos os momentos.

Agora, decisão que cabe aos interessados, ultrapassar, chegar ao último degrau e abrir as cortinas... E conferir que o que é seu, estava guardado e só seria entregue em suas mãos.

A liberdade escondida na caverna, como as rosas cercadas por espinhos.

Percebo que podemos mudar o pensamento, não deixar de ter medo, mas buscar o equilíbrio. Para não perdemos a beleza , o tesouro, a glória.

Que esta distante, mas ao nosso alcance.





Ana de Almeida Santos Zaher é escritora e membro da UBE (União Brasileira de Escritores)

domingo, 10 de julho de 2011

Entrevista de Menalton Braff a EPTV - Ribeirão Preto

Entrevista programa Entrelinhas com nosso Diretor de Integração Nacional - Menalton Braff

No calor da hora

Hélio  Consolaro

Ontem, de manhã, assisti a uma conferência, ao vivo, presencialmente, denominada “No calor da hora”, que discutiu as revistas literárias. Elas trabalham com o momento, não possuem uma perspectiva do tempo para avaliar o seu fazer.

Estranho é que vieram dois editores de revistas estrangeiras, porque o mercado editorial brasileiro está comprando selos estrangeiros, e a revista “Granta” será o selo para inserir os escritores novos no mercado pela editora Objetiva.  John Freeman foi o representante dessa revista na mesa, discursou em inglês, com tradução simultânea.



O mexicano Enrique Krauze, editor da revista “Letras Libres” discursou em espanhol, com tradução simultânea (quase desnecessária para o público brasileiro). O seu tema foi a América Latina, Otávio Paz, o marxismo.



Disse que Lula é um líder institucional, não é como Chavez  e Fidel cujas  biografias se confundem com a história  de seu  país, caudilhos. Também afirmou que o marxismo ainda encanta a intelectualidade da América hispânica.

Hélio Consolaro é jornalista e escritor, membro da UBE, Núcleo Araçatuba e região.

sábado, 9 de julho de 2011

Nem tudo são livros na Flip

Hélio Consolaro

Participar da Flip é uma aventura, mesmo antes de chegar a Paraty. O primeiro desafio é comprar ingressos para  as palestras via internet. Muitas conferências tiveram a venda esgotada no primeiro dia, 6 de junho.

Caso não consiga assistir ingresso para assistir presencialmente a conferência, vende-se ingresso a R$ 6,00 para assistir pelo telão, numa grande tenda. Aqui tudo é provisório, realizado  em tendas. Esses ingressos também são vendidos pela internet e se esgotaram rapidamente. 

Estranho mesmo  é esgotar a venda de ingressos pela internet para determinado evento, mas abre-se a oferta novamente aqui. Não sei se é erro de organização ou apenas parte dos ingressos são disponibilizados pela rede de computadores.

Além da programação oficial, há as paralelas. Na  sexta-feira, 8/7/2011, 11h, a Casa Folha (uma  casa onde o jornal Folha de São Paulo) promove encontro de leitores com seus colaboradores, como: Laerte, Ferreira Gullar, Xico de Sá, Contardo Calligaris, Fernando Rodrigues. Houve na quinta-feira, 7/7, um debate sobre Literatura e jornalismo cultural.

O MALA

Parte da turma foi ouvir o poeta Ferreira Gullar. A Casa Folha é um lugar em que cabem 50 pessoas, havia 200. Gente pisando em gente. Atrasou por 30 minutos.

Contou toda a sua história. Ser sobrevivente da ditadura militar dá ibope, então, lá vai conversa. Na verdade,  eu estava lá porque meu amigo Tito Damazo queria entregar ao Ferreira Gullar o livro que escreveu sobre o poeta, um trabalho acadêmico. E também gostaria de pegar um autógrafo num volume da 5.ª edição do Poema Sujo, editado pela Civilização Brasileira.

Ferreira Gullar já tinha recebido a dissertação há algum tempo, mas não em forma de livro. O sonho era dizer:
- Está aqui, mestre, um livro que fala sobre você!

Como eu e o Tito nos hospedamos no mesmo quarto, percebi que aquele momento seria apoteótico, como um estudante juvenil, se preparou para o momento. Tenho comigo que conhecer o ídolo de perto é um desastre, porque quase sempre ele não é aquilo que imaginamos. E o aforismo foi comprovado.

Ferreira Gullar, na verdade, é um porra-louca que deu certo. Aliás, nós, artistas, somos todos assim, mas há gente que vence pela idade. Outros viram mito porque morreram cedo. Ele está um mala e, atualmente, tem idéias de jerico e faz questão  de expressá-las.       

Então, caro leitor, o Tito, com aquela timidez que lhe é peculiar, não avançou, não atropelou ninguém. Deixou para entregar educadamente o livro no fim da palestra. E eu com a câmera digital para registrar o momento.

Não entregou, porque não ficou no final para  a rodinha de conversa com os admiradores, deu as costas, foi embora, assessorado por um jornalista da Folha. Parou na travessia da rua para dar entrevista a um canal de televisão, mas renegou o contato pessoal. Deixou meu amigo Tito Damazo falando sozinho.

Quantas noites maldormidas, quanta pesquisa sobre o poeta para receber aquele tratamento. Tito Damazo ainda quis justificar tal atitude, dizendo que o poeta é um octogenário, etc. mas não me convenceu. Ferreira Gullar está  firmão, inteiro. 

Nada foi  feito de propósito, mas todo escritor  deve cultivar  seus leitores e admiradores, não tem o  direito de ser mala.
Nem tudo  na Flip são  livros. Há muito dinheiro rolando e egos inflados em demasia.






Hélio Consolaro é jornalista e escritor, membro da UBE, Núcleo Araçatuba e região.

Dois palmeirenses em papo sério

Hélio Consolaro


Assisti ontem a uma conferência muito boa, a relação da religião com a ciência, e vice-versa. Parece um tema ultrapassado neste século 21, porém, muito pertinente aos avanços da neurociência, campo de pesquisa de Miguel Nicolelis. 

O outro palmeirense era Luís Felipe Pondé que abordou o tema  "o humano além do humano". Pelo  menos os dois tinham um ponto em comum, desde o início da conferência, torcem pelo Palmeiras. Como palmeirense, fiquei orgulhoso disso. Percebi que na tribo verde há gente muito inteligente. Nicolelis, candidato forte ao prêmio Nobel, disse que troca esse grandioso prêmio pelo  hexa da Copa do  Mundo.

Como  descendente de italiano, mostrou que é um tremendo gozador, deve ser a atração de qualquer roda de conversa. Ficou muito emocionado, quando disse que seu sonho é sua pesquisa poder proporcionar a uma criança brasileira, tetraplégica, a dar o chute inicial na Copa de 2014.  Biografia de  Miguel Nicolelis

Miguel Nicolelis nasceu em São Paulo, em 1961. É médico neurocientista, professor titular de neurobiologia e engenharia biomédica e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University. Seu trabalho com próteses neurais integra a lista das “10 tecnologias que vão mudar o mundo”, segundo o MIT (Massachusetts Institute of Technology). Foi considerado pela revista Scientific American um dos vinte maiores cientistas do mundo no começo da década passada. Nicolelis também concebeu e lidera o projeto do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, na capital do Rio Grande do Norte.

Biografia de Luís Felipe Pondé

 
Luiz Felipe Pondé é filósofo, doutor pela Universidade de São Paulo e Université de Paris VIII e professor do Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da Religião da PUC-SP.

Santos Dumont e o exoesqueleto


A voz do neurocientista Miguel Nicolelis ficou embargada no final de sua apresentação nesta Flip 2011, quando anunciou que o primeiro exoesqueleto robótico será usado pela primeira vez no país do futebol, no jogo de abertura da Copa de 2014, por uma criança brasileira tetraplégica, que vai dar o pontapé inicial da partida. Essa prótese de corpo inteiro, capaz de obedecer comandos enviados diretamente pelo cérebro de um primata, está em desenvolvimento pelo consórcio do projeto Walk Again (volte a andar), que envolve universidades e centros de pesquisa do mundo inteiro sob a supervisão do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, nos Estados Unidos, que é dirigido por Nicolelis.  Também integra o consórcio o Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), outra ideia de Nicolelis que vingou.



No fundo, o brasileiro parece com seu herói, Santos Dumont, que prometeu voar – e voou. “O sonho em Natal é que os voos de muitos Santos Dumont sejam feitos por aqui, sob a luz do Cruzeiro do Sul”, disse Nicolelis, que acaba de lançar no Brasil o livroMuito além do nosso eu. Nele, explica para leigos, sem perder em profundidade, a pesquisa e o desenvolvimento de interfaces homem-máquina como o exoesqueleto em questão. Na noite desta quinta-feira (7), na Tenda dos Autores, ele foi além: mostrou a imagem de um pensamento primata (fotografia do movimento dos neurônios de um macaco no momento em que ele comanda seu braço para pegar um objeto). “A tempestade cerebral existe mesmo e o som é este”, explicou, enquanto aumentava o volume de um som de rádio AM fora de sintonia, registro sonoro do ruído produzido pelos neurônios do macaco durante o gesto. “Tudo que definimos como natureza humana se resume a tempestades como esta – gestos, emoções, angústias, ideias, medos, vontades, tudo se traduz num som como este. E este é o som de apenas cem neurônios.” As experiências com macacos em Durham, na Carolina do Norte, sede da Universidade Duke, permitiram que um deles movimentasse um robô em Kyoto, no Japão. Surpresa: o exoesqueleto moveu-se 20 milissegundos mais rápido do que o macaco cujo cérebro gerou o movimento. “Imaginem um mundo em que a atividade do cérebro possa agir em todo o universo, controlado por nossa consciência e recebendo sensações de volta”, disse Nicolelis. De fato, uma das experiências com os macacos consiste em fazê-los mover um braço virtual numa tela de computador. Esse braço deve tocar três círculos idênticos, mas de textura diferente, não visível. Mas a mão virtual “sente” a diferença e envia um sinal ao cérebro do macaco que, então, com essa informação, escolhe o círculo certo e ganha o seu prêmio – suco de laranja. A idéia do exoesqueleto a ser “inaugurado” no Brasil em 2014 resulta desse tipo de experiência e leva em consideração o fato de que “o cérebro de um paralítico continua a imaginar ações que seu corpo já não pode executar”. Seriam estas as demonstrações científicas da validade de propostas como a do futurista estadunidense Raymond Kurtzweil e seus célebres livros The Age of Intelligent Machines (1990) e The Age of Spiritual Machines (1998)? Absolutamente não. “Essas ideias, que se tornam cada vez mais populares nos Estados Unidos, não são científicas”, garante Nicolelis. “É absolutamente impossível computar emoções humanas, por exemplo, e não há o menor risco de que um computador baseado na máquina de Turing – como todos os que existem hoje – venha a superar a inteligência humana. É apenas uma visão ideológica, não científica.” A vã filosofia Sob o tema “o humano além do humano”, esta última mesa do dia foi mediada pela jornalista Laura Greenhalgh, editora de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo, e tinha como contraponto a Nicolelis o filósofo da religião Luiz Felipe Pondé, colunista daFolha de S. Paulo. Pondé iniciou suas considerações com uma descrição detalhada do último filme de Lars von Trier, Melancolia, seguida por algumas ideias sobre como se cruzam os caminhos da ciência e da religião. “Se Deus fracassa, a ciência resolve”, explicou, em um dos múltiplos aforismos com que brindou a plateia. Citou Platão e sua república utópica, Chesterton e suas advertências aos ateus, Nietzsche e seu niilismo, Dostoiévski e Prometeu. Espargiu metodicamente as frases com que seduz seus leitores na Folha – “o ser humano mata porque gosta”, “o que torna humano o ser humano é seu sofrimento”, “cérebros podem ser enormes máquinas de produção de uma certeza monstruosa” – e acabou por épater les bourgeois com uma longa digressão sobre o valor da eugenia, que seria, a seu ver, “parte integral da matriz científica ocidental”. “Somos todos eugenistas, todos queremos um ser humano melhor, mais saudável, mais bonito, mais inteligente e que sofra menos”, ponderou. Numa reflexão mais próxima das questões em debate no palco, parece ter sugerido que o exposto por Nicolelis dava-lhe a ideia de “uma nave espacial na velocidade da luz, desembestada em direção ao vazio do universo”, embora se tenha apressado a esclarecer que “isso não significa que ela deva parar”. Por fim, disse que “o que humaniza o ser humano é o fracasso”, provavelmente sem se dar conta de que a assertiva reduziria Nicolelis à categoria de um ser humano desumano. Este, que ouviu pacientemente as ponderações do filósofo, reservou para o final um discreto e pungente comentário. Em resposta ao pedido de um espectador para que descrevesse o projeto educacional em curso no IINN, em Natal, explicou que ali há comunicação entre neurocientistas, que estudam o cérebro, e pedagogos, que pretendem ensinar novas coisas ao cérebro. “É o casamento, agora legalizado pelo Supremo, entre Paulo Freire e Santos Dumont”, brincou. Afinal, o cérebro de nossas crianças é bem diferente do nosso, explicou. “As novas gerações são mais proficientes que as anteriores e a escola não se adaptou. Se os pais de Santos Dumont insistissem no seu sucesso escolar e menosprezassem seu interesse por voar, ele desistiria e acabaria em alguma faculdade de filosofia...”

Hélio Consolaro é jornalista e escritor, membro da UBE, Núcleo Araçatuba e região.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Flip – Paraty 2011 – glamour da literatura




Hélio Consolaro

Paraty é uma cidade bem provinciana. Aos meus olhos isso é um charme. A vida, por aqui, corre devagar. Em julho, o turismo de veraneio é substituído pelo turismo cultural. Depois de 12 horas de viagem em ônibus, chegamos. Não sei qual cidade fica mais longe, se Paraty ou Araçatuba. Viajar em turma é bem mais animado, as recordações serão mais agradáveis.

Um secretário da Cultura, que se preze, precisa visitar tais eventos, ver como são organizados, aproveitar ideias. E, acima de tudo, ficar conectado ao mundo onde atua. Também, participar do evento é um enriquecimento pessoal.

Estou hospedado, juntamente com a turma, na Othon Pousada Villa del Sol. Hospedagem prazerosa, tudo muito bem cuidado. O café da manhã feito para encher os olhos, porque o estômago está controlado. Depois de certa idade, se faz necessário comer pouco. Queria um café desse, farto, quando fora menino pobre, com aquela gulodice carente.

As conferências de abertura já valeram a longa viagem. Ouvir Antônio Cândido com tanta vitalidade e lucidez aos 93 anos é um prêmio, não sei se para ele, mas para nós, com certeza. Conhecer Oswald de Andrade mais um pouco com seu depoimento, pois Cândido conviveu com o escritor modernista.

Depois, houve o show de Elza Soares com José Miguel Wisnik. Para Tito Damazo, "o espetáculo foi artístico e literário, ímpar. José Miguel é um profissional de versatilidade incomum, pois consegue ser professor, letrista, músico, cantor de qualidade. Fazendo tudo muito bem. Sua voz é bem parecida com a de Caetano. A participação de Celso Sim foi ótima, uma mistura de Ney Matogrosso e Cazuza. Elza Soares marcou presença, engrandeceu a abertura com sua figura, pois estava em convalescença, cantou sentada, deu glamour ao show, sendo reverenciada pelos artistas do palco e pelo público. Um show de versões diferentes".

Há muitas atividades paralelas, como a Folha de São Paulo que trará na quinta-feira o grande poeta, brasileiro, Ferreira Gullar. A Fundação da Biblioteca Nacional promoverá uma discussão sobre as bibliotecas públicas hoje, 7/7, à tarde.

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da UBE, núcleo de Araçatuba-SP

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Oswald


Cecília Ferreira*

Em Paraty, dia seis de junho, a lua é nova como a expectativa dos festeiros literatos e curiosos literários.

E será crescente, a partir do dia oito. Esperemos, que também as nossas alegrias assim sejam no aproveitamento de tudo o que Paraty oferece.

A cada ano a Flip escolhe um autor para homenagear. Este ano Oswald de Andrade é o selecionado para receber a cortesia.

O paulista, formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, e mais tarde em jornalismo literário, que regressou com influências futuristas na bagagem europeia, poderia ser conhecido como o homem dos três Is: Insurgente, Irreverente, Inovador.

O poeta, ensaísta e dramaturgo foi autor dos dois manifestos mais importantes do movimento modernista.

Ele e Mário de Andrade, estiveram à frente na criação da Semana de Arte Moderna (1922), ou Semana de 22, movimento que rompia com o passado em todas as formas artísticoestéticas.

A poesia, por exemplo, antes era apenas escrita e passou a ser declamada... Se não fosse Oswald e companheiros o que seria dos saraus de Araçatuba sem a voz de Cidinha Baracat?

Ainda bem que A Semana, como toda reação, veio a resultar de turbulências políticas, sociais, econômicas e culturais. As vanguardas de então, com suas propostas estéticas inéditas, surgiam para espantar o mundo com linguagens desprovidas de regras.

Como tudo o que é novo e desconhecido o movimento de 22 gerava medo fazendo deste, o primeiro movimento genuinamente nacional, alvo para dardos críticos. Condenada por uma parcela da sociedade e por outra simplesmente ignorada, a Semana não foi bem entendida em sua época.

Em 1924 Oswald escreveu o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, em que defende a poesia não contaminda por influências estrangeiras quaisquer. E em 28 o Manifesto Antropofágico (ou antropófago) que propunha a "Devoração cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação".

Foi casado com Tarsila do Amaral, grande modernista nas artes plásticas, abandonando-a por Pagu (Patrícia Galvão) e tornando-se militante do PCB. Por último casou-se com Maria Antonieta D’Alkimin.

Oswald foi precursor do concretismo, tendo influenciado também o movimento tropicalista.

O que pensaria Oswald dos caminhos e rumos da literatura nacional, de toda essa tropicalidade efervescente de Paraty? Só o que saberemos é o que hoje acham da vanguarda de Oswald os nossos literatos de expressão.

Boa mesa de abertura a todos!

PS: Vamos dividir as suas descobertas com todos? Se você circulando pela net, ou pelas encantadoras ruelas e quebradas Paraty e acha que algo sobre a cidade, ou Flip 2011, deve ser compartilhado com o Núcleo Regional da UBE, escreva para: cici_lita@hotmail.com

Cecilia Ferreira é jornalista e escritora, membro da União Brasileira de Escritores - UBE e da Academia Araçatubense de Letras - AAL.

INFORMAÇÕES GERAIS SOBRE PARATY


PARATY (algumas informaçoes úteis)


CÓDIGO:  (024)
PREFEITURA = 3371.1266
DISTÂNCIA:
SãoPaulo / Paraty = 330 Km

ÔNIBUS (serviço)
Empresa de ônibus Reunidas (SP) = 3371.1196
Empresa de ônibus Colitur (regional) = 3371.1224

BANCOS
Itaú = 3371.1546
Bradesco = 3371.1860
Banco do Brasil = 3371.1379

SECRETARIA de TURISMO e CULTURA = 3371.1897

CENTRO de INFORMAÇÕES TURÍSTICAS = 3371.1897

SANTA CASA = 3371.1623

POLÍCIA = 3371.1252

CORPO de BOMBEIROS = 3371.1193

CAPITANIA dos PORTOS = 3371.1583

ÁREA = 982 KM2

ALTITUDE = 5m

HABITANTES próximo dos 30 mil

CIDADES PRÓXIMAS
Cunha (a oeste)
Angra dos Reis (ao norte)
Ubatuba (ao sul)

DICAS PRA FLIP 2011


Cecília Ferreira*

Quem já foi, tem vontade de mais!

Demais!

Flip 2011.

Pra quem vai, aqui vão, sugestões:

INGRESSOS:

Se não conseguiu ingresso para alguma mesa que queria muito, não sofra!

Vai encontrar ingresso sendo vendido na hora, perto da porta da tenda principal. Muitas vezes vai encontrar preços mais baratos que os de venda.

Por quê?

Não são oferecidos por cambistas, mas por escritores que por alguma razão pessoal não poderão assistir.

TEMPO & CLIMA & Dicas de bagagem

Para os dias da Flip a temperatura máxima prevista é de 25 graus e a mínima de 8 graus

Paraty costuma brindar seus visitantes com chuva, embora ela seja intermitente. Portanto um guarda-chuva dobrável, pequeno, é bom e não faz mal. Porém nós que lá estaremos fomos brindados com a positiva previsão de quatro dias sem chuva. Sendo que o único dia nublado será o primeiro dia, seis de julho.

Se gosta de souvenirs a Flip costuma vender, além de muitos livros, agendas, canecas, canetas, lápis, e outras recordações, guarda-chuvas com o símbolo da festa década ano.

Geralmente as distâncias que se vai percorrer são curtas. Circula-se em um centro histórico charmoso e não muito vasto onde se encontram os melhores restaurantes, a maioria das pousadas e hotéis, e a tenda da Flip.

O calçamento das ruas é antigo (leia na crônica Paratyso) e incrível, mas como é muito irregular aconselha-se às mulheres sapatilhas e/ou botas e sapatos sem salto.

Homens e mulheres devem lembrar-se de que como a chuva pode ser diária (mesmo com boa previsão Paraty pode surpreender), o bom mesmo é um calçado que, além de prático e baixinho, tenha solado de borracha, ou qualquer outro material impermeável e aderente a qualquer piso (não são incomuns os tombos e escorregões).

Na Festa muita coisa interessante acontece ao ar livre. As noites são longas porque o movimento vai até tarde. E se o calor humano é muito, a temperatura é baixa por isso boinas, chapéus, bonés, casquetes e xales ou cachecóis são peças interessantes para se levar na mala.

DICAS de APROVEITAMENTO

Paraty e a própria Flip têm tanto a oferecer que se não estiver atento vai perder o bom da festa que acontece também para além das palestras principais.

Se recebeu os seus ingressos em casa dirija-se ao local em que se compra ingressos assimque fizerseu check-in. Porque é lá que costumam distribuir informativos sobre os acontecimentos literários e artísticos da Festa. Não deixe de ler e programar-se.

Escolha um dos bons (e infelizmente caros) restaurantes e disponha-se a gastar mais para alimentar-se ao menos um dia para descobrir o que é desejar comer ajoelhado.

LEMBRE-SE

Em Paraty há gente pra todo estilo, preserve o seu.

Encontre tempo para fazer um passeio de barco ou escuna. Vale a pena!

Em Paraty (com tanto estilo) só há uma tribo: a da pena (literária).

Apenas se preocupe em estar feliz e à vontade.

PARATYSO

Cecília Ferreira*

Quatro dias no paraíso. Não, não é o nome de filme, nem título de romance água com açúcar. Quatro dias no paraíso é estar em Paraty, para a FLIP, Festa Internacional do Livro. O título "Festa" é elegante, digno e irrepreensível. A Festa é festa de fato. Pedaço do Éden. Parcela de enlevo. Gente culta, inteligente, disciplinada e ecologicamente moderna, do Brasil e do mundo, concentrada sobre delimitado e instável calçamento de 400 anos. Não há papel sujo sobre o chão, nem papel impresso no lixo. Lixo é lixo e gente é racional. Frenesi formiguejando cultura.

O caminho das pedras é o melhor caminho. É preciso explicar. Ali as ruas são cobertas de pedras não polidas ou desbastadas. Tais pedras são portuguesas. Ruas e ruas feitas de lastro. Bem como o caminho que levava ao ouro das Minas Gerais. Lastro é toda carga que dá equilíbrio a um navio, era fardo que, colocado no fundo porão das galeras portuguesas, evitava que o navio afundasse por estar vazio. Lastro é estabilidade. Tudo a ver com o financeiro... Os antigos navios à vela deixavam-nos pesadas e grandes rochas e levavam-nos, também pesadamente, o ouro. Navios chegando em lastro: pétreos. Navios partindo em fausto: áureos. Numismaticidades. Estável para Portugual, instável para o Brasil. Como a vida, como os amores, como os humores, como as marés.

Só não para os índios, antes dos portugueses, antes de nós, quando os Guaianás iam à Paraty atrás das suas praias consideradas medicinais. Para eles, Paraíso, até a chegada do europeu; para nós, Paratyso, em quatro FLIP dias.

Em todos os outros dias, pelas ruas de Paraty pés de portuguesinhas vestidas em rodadas saias coloniais se abrasileirariam no constante resvalar do ir e vir sobre pedras abauladamente desiguais, artística e ordenadamente aplicadas sobre antigas ruas de areia, que se afundaram ao sabor de render-se a pesos e a passos. Cariocas hoje, nesses todos os outros dias.

Mas, nos tais citados quatro FLIP dias, se caminhar em Paraty exige arte e equilíbrio, o conviver mundial ali não exige esforço algum. Somos, além do que somos, todos etólogos, etnólogos, ecólogos e por vezes, enólogos. Por que não? É nos barezinhos e restaurantes de drinques e refeições próximas dos manás divinos, nas calçadas com carroças e doces típicos em tabuleiros, nas praças de alimentos de consumo mais imediato, que anoitece ou amanhece a hora de os apreciadores de iguarias dividirem as suas impressões literárias e artísticas. Mas são artistas os cozinheiros, os bartenders, os graçons, como os músicos, os escritores, os editores, os escultores, os pintores, os literatos consumidores ou vendedores de literatura. Confraternizam em toda esquina, em cada mesa, em qualquer praça, homens e mulheres que se sentem em casa, porque todos têm uma única e real vontade: um mundo.

Não só um mundo melhor, nem um mundo só mais pensado, mais rico, ou sem toda a maldade, ou com nem mesmo uma doença. Mas um mundo facilmente administrável porque se acabariam, ou controlariam-se, ânsias e ganâncias. O poder, que desaguaria em cargos drogas pragas pregos crucificações, finado.

Paraty é, então, toda arte de respeitar o que vive e respira, tudo o que se pode conhecer e ensinar, toda vontade de expurgo, não dos perfeitos, mas dos lavados, autocorrigidos, apurados, ou em processo de... Não bastasse, tudo acontece em centro histórico lindamente preservado.

Paraty, noventa e seis horas. Cidade em que houve, há, vontade. Vontade de quem fez, de quem faz, de quem lá está e parte, e, quando parte, já quer voltar. Paraty da deferência e querença, da escusa e absolvição, do sorriso de "que bom que estou aqui e você também", da compreensão e constatação do "não há no Brasil, nas Américas, no Mundo apenas um ou dois de nós". Que bom.

Ainda que por curtos quatro, mas intensos, dias descortinaram-se palestras divertidas, risíveis, lúcidas (muito lúcidas) e interessantes. Dias em que se descobriram escritores, representando iranianos (o povo), judeus (o povo), americanos (o povo), indianos (o povo), brasileiros (o povo) e muitos outros (os povos), apesar das incontáveis diferenças, a querer apenas uma única e mesma coisa: "arte, porque a vida não basta" (Ferreira Gullar, 07/08/2010 - Paraty).

*Cecilia Ferreira, jornalista, membro da União Brasileira de Escritores - UBE e da Academia Araçatubense de Letras - AAL, autora de (entre outros) Vinhos (poemas), editora, pós-graduada em Comunicação e Linguagem. Fez parte da Comissão Julgadora do concurso de contos Cidade de Araçatuba-SP.


terça-feira, 5 de julho de 2011

CAMINHO DE VOLTA


Jordemo Zaneli Júnior


Recentemente os principais veículos de comunicação do Brasil, noticiaram o regresso de brasileiros que depois de anos nos Estados Unidos, fazem o caminho inverso. Ouviram muitas histórias de imigrantes que fizeram fama e riqueza por lá (estilistas, cabeleireiros, modelos, jogadores de futebol, médicos), gente que foi valorizada pelo seu talento. Partiram em busca do sonho americano. Exemplos que por muito tempo, refluíam o imaginário de jovens latinos enriquecendo seus sonhos de conquista da América.

Os Estados Unidos não foi o único destino dos brasileiros. Japão, Portugal, Espanha, Itália, Reino Unido, também estiveram na mira dos imigrantes, que viveram histórias interessantes de lutas, conquistas, glórias e decepções. Humilhações, desprezo para quem buscava um pouquinho de recompensa em troca de muito trabalho e dedicação. Não foram só os brazucas que comeram o pão que o diabo amassou, argentinos, chilenos, bolivianos, detidos em aeroportos, sem direito ao menos de ir ao banheiro, sem direito a comer e até a um mísero copo d’água. Relatos de turistas que viam autoridades agindo como verdadeiras bestas feras, com ódio estampado em seus semblantes. Brasileiros que perderam suas vidas pelo mundo afora e jamais puderam retornar à pátria para um enterro digno, principalmente na fronteira México/ Estados Unidos. Rota de narcotráfico entre os países, o local transformado nos últimos anos em um dos mais violentos do mundo. Assassinatos e chacinas são constantes na região. O exército mexicano conta com cerca de cinco mil homens que tentam debelar a violência crescente. Mas o tráfico não recua. Pelo contrário, avança fortemente com seus quase meio milhão de envolvidos direta ou indiretamente em atividades criminosas.

Tudo igual aos constantes confrontos entre policiais e traficantes nas ruas das cidades brasileiras, com o padecimento de inocentes que não conseguem escapar das balas perdidas. Nunca se sabe ao certo a procedência dos projéteis, se da polícia ou dos traficantes. A população das cidades disputadas pelos traficantes tanto do México quanto do Brasil, vivem refém da violência e do terror. Pequenos regalos da vida, como frequentar um parque, um restaurante, são privilégios dos destemidos ou dos donos do pedaço.

Até hoje a história de um jovem trabalhador brasileiro morto em uma estação de metrô em Londres comove a todos. O jovem, então com vinte e sete anos, foi baleado logo depois de embarcar no metrô, estava a caminho do trabalho. O momento era de tensão na cidade devido à ameaça de atentados suicidas comandados por grupos terroristas. Apenas quinze dias antes, quatro muçulmanos britânicos haviam agido como homens-bomba, matando cinquenta e duas pessoas e ferindo outras tantas em metrôs e ônibus em Londres.

O episódio revoltou ainda mais o povo sul-americano depois que os onze policiais britânicos, envolvidos na morte do brasileiro, não sofreram nenhuma punição. Imigrantes de outras nacionalidades residentes em Londres também fizeram diversas manifestações pela punição dos culpados. O fato ainda causou indignação pelo mundo. A defesa dos policiais alegou que os mesmos, confundiram o jovem com um homem-bomba. Houve protestos inclusive das autoridades brasileiras, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil chegou a manifestar sua inconformidade com o fato, instruindo o Consulado-Geral do Brasil em Londres a renovar a solidariedade e apoio do Governo brasileiro à família do falecido, além de manifestar às autoridades britânicas o desagrado do Governo Brasileiro com a situação.

Enfim o caminho de volta. O mundo encontrou a rota para o Brasil. Precisaremos fechar nossas fronteiras?
Jordemo Zaneli Junior é advogado e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

ALFA E ÔMEGA


Wanilda Borghi


Na festa da realeza, conversavam os ingredientes da salada, sobre a mesa.

Dizia assim o Jasmim:

─ Não sei se fui rebaixado ou se subi de posto, senão vejam: nem bem estamos em agosto, e eu aqui, misturado a alimentos. Antes era escalado para adorno. Sem falar no perfume que tenho.

─ Quem disse que você é comestível, completou o Ibisco.

De lado, cabisbaixo, estava o azeite. Alguém com ele listara as folhas da travessa. Alguém, não sei se com raiva ou pressa. Fato é que ele, o azeite, estava tristonho.

─ Acho que presenciei boa parte da conversa, disse o Tomate.

─ Estava ele de amores com a Senhorita Alface. Mas, creio, se desentenderam. Ela, calma, em suas nuances de verde, recitava poemas narcisos, enquanto ele, apaixonado, se desmanchava em sorrisos.

─ Mas eis que ela viu o agrião. E passou a alfinetar seu antigo enamorado:

─ Sou o princípio, a origem, a primeira da fila. Nada existiria sem mim.

Ele, azeite, Ômega, sequer murmurava. Em seu silêncio, sua reflexão ecoava: fim da linha, fim da linha. Até que rodopiou e com esse impulso a fila empurrou.

Revigorado e fortalecido, pode então responder-lhe:

─ Eu, como fico na rasteira, não tenho essa sua pose altaneira, mas exerço muito bem minhas funções:

─ Sou eu quem dá brilho à salada e quem lhe tonifica o coração.

Mas ela, ali, encimesmada, - afinal era dia de festa -, escondia a lisura de sua fala do dia a dia a sós, com ele, enquanto lhe interessou conquistar-lhe a companhia. E continuou com seus insultos:

─ Só lhe resta segurar, literalmente, as pontas. A ponta última, porque eu enfeito a primeira, a principal.

No auge da discussão, eis que alguém, desastrado, derruba na salada, um pouquinho de feijão; o suficiente para enfeiar o prato, que rapidamente foi levado para os fundos.

Veio pra mesa, outro tipo de salada que exigia diferente tempero.

Moral da história? Deu zebra: venceu a coluna do meio.

(1856)

Wanilda Borghi é Membro da União Brasileira de Escritores - UBE e representa o Grupo Experimental da AAL no CMPCA.

POEMAS DE COPO NA MÃO

Hélio Consolaro
 

Conheci Luana Vignon ainda menina, mocinha, menina- moça, numa sala de aula do ensino médio. Aquela garota silenciosa se diferenciava do grupo nas aulas de Literatura. Para questionar, me chamava à carteira, para que não houvesse escândalo. Naquela época, usava um par de óculos de quem não valoriza a vaidade. Sua beleza superava aquela cangalha no nariz. Uma morena com sobrenome estrangeiro.

Por meu convite, começou a frequentar o Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras. E por lá ficou alguns anos, lendo seus textos vanguardistas aos demais escritores. De repente, voou para São Paulo, a vida provinciana não lhe satisfazia mais.

Trocamos alguns e-mails. Mensagens pelo MSN. E o silêncio de algum tempo depois se rompeu, quando me disse que queria lançar seu livro em Araçatuba: “Os tiros vêm do paraíso”, que me foi mandado pelo correio.
 
O produtor cultural Antônio Carlos Nicolau cuidou do lançamento do livro em Araçatuba, assim fizemos uma parceria para que a Luana ficasse contente com a noite de autógrafo. Infelizmente, apareceram poucas pessoas. Há gente que grita por cultura em Araçatuba, mas só frequentam grandes espetáculos, não prestigiam os artistas locais.
 
Os tiros vêm do paraíso” é fininho, tem 40 páginas. Em 2000, fiquei incomodado com o meu livro de poemas “Urubu branco”, porque ele não parava de pé, mas o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, “Alguma poesia”, era raquítico também, 30 poemas. Tanto que nunca é publicado sozinho, vem sempre acoplado a outro livro do poeta. Nem por isso, é um livro menor de sua produção literária.
 
O título do livro de Luana Vignon revela um paradoxo, porque do paraíso só esperamos prazeres. E é de lá que vêm os tiros. Façamos um paralelo para entender melhor: Estados Unidos é um paraíso para muita gente, o lugar sonhado, mas as guerras atuais nascem, todas, por decisões norte-americanas: “Os tiros vêm do paraíso”.
 
Eu li o livro por duas vezes. A primeira, com um copo de Campari de lado, descontraído, com as portas da alma abertas. A outra, tomando café “capuccino”, num dia fresco. Gostei de mergulhar as palavras no copo, pois os poemas de Luana andaram bebendo.
 
Senti nos poemas dela um pouco dos meus, quando na juventude eu tinha ócio para poetar. Época em que nos sentimos maior que o mundo. Agora, sou um cachorro molambento vagando pelas ruas.
 
O prefácio de Marcelo Montenegro afirma que os versos de Luana desorganizam a orquestra do comedimento. Não há fórmula nestes tiros que vêm do paraíso. Há vida, sem polimentos, “sorvete de uva pingando na barra do uniforme” – e dor.
 
E recomenda o prefaciador: “Bote este livro na vitrola. A Luana é uma espécie de Ângela Rô Rô, de ‘scat singer’ da poesia. Que sabe que ‘os piratas nunca dormem’ e que o vinho sempre acaba antes da sede. Por isso ‘faz tanto silêncio dentro do seu berro’”
 
Hélio Consolaro é professor, jornalista, escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras, da UBE e da Cia. dos Blogueiros. Atualmente é secretário da Cultura de Araçatuba.

TUDO JUNTO E MISTURADO


Tudo junto e misturado
Cecilia Ferreira

 
Família-Escola-Livros-Educação! Tudo junto e misturado graças aos bons educadores, soberanos (embora sejam cada vez menos os corajosos a quem se dá voz e espaço) e às famílias ainda producentes pelas cidades deste Brasil. Araçatuba não difere, pois é de seus direitos que sobrevive o homem.

Saiu o livro “Introdução ao Ordenamento Jurídico”, do professor, Mestre em Direito Processual Civil, e doutorando em filosofia do Direito pela PUC de São Paulo, Fernando Rister de Sousa Lima.

No diálogo, entre Norberto Bobbio e a Doutrina Brasileira que Fernando faz travar, a obra, de alta consistência teórica, serve aos iniciados em Teoria Geral do Direito, Filosofia e Sociologia do Direito. Se esta é uma cidade que cresce todos os dias nas questões Legais, efervescente em suas Faculdades e Centros Universitários, e, tomara mais ainda, no estudo das Doutrinas Jurídicas, é porque bons advogados aqui têm fixado suas vidas, escritórios, e anseios.

Fernando (professor na PUC e no Unitoledo) nos apresenta uma literatura tão específica quanto relevante. O advogado, por trás da literatura, visa a evolução do Direito do Homem baseado na defesa, manutenção e valorização do ensino de conquistas intelectuais passadas. Louvável, já que não há como subir uma escada desprezando dezenas de degraus. O cérebro, essa máquina fantástica, pode sim saltar níveis, mas precisa sabê-los, vislumbrá-los, para calcular distâncias e riscos que o abandono de tais patamares possa acarretar para os profissionais do mundo jurídico, e, consequentemente para os clientes.

Nos últimos anos parece haver um esforço em fazer-se pouco de quem lê e estuda. Tentativa de idiotizar a classe pensante? A facilitação do acesso a cargos diretores dos rumos deste país aos ignorantes e despreparados seria forma de ampliar influências aproveitando-se de sua inocência, bondade e pouca compreensão intelectual? Ou simples desejo de inibir a vontade da juventude intelectualmente capaz?

“Estudar pra quê? Se quem ganha mais é quem estuda menos? Se os mais altos cargos independem do saber?”, talvez pensem. Acha que essa mensagem não tem sido passada? Quem não têm competência para ver o que estão fazendo deste país, não deveria estar em posição de poder influenciá-lo. Não há país, ou indústria, ou empresa, que privilegie contratar o despreparado. Hã... Correção: há país, ao menos um, mas não há indústria ou empresa, nem mesmo uma que não exija formação adequada.

Ensino sucateado, escolas prontas à espera do início do longínquo horário eleitoral para serem inauguradas, direitos e salários dos professores reduzidos, liberdades infantis aumentadas, acesso às drogas facilitado. E se gerenciar e organizar não é para qualquer um, educar muito menos! Ou a incompetência é tanta que não se enxerga que a vontade de exterminar o desenvolvimento das mentes brilhantes anda por aí com a altivez de coisa correta?

Pense no que tem sido promovido na vida privada e nas liberdades individuais do homem brasileiro. Só pessoas instruídas são capazes de enxergar, e unidas se opor às inversões de valores e às invasões sistemáticas.

E se a união é conquista rara, quem é capaz se expõe orgulhoso de si. Flávio Zani Gonçalves, um jovem jornalista, repórter atuante no telejornalismo araçatubense, é produto de boa família, professores e escolas. Ideais corretos lhe foram ensinados. A força de vontade, claro, nasceu com ele. A valorização dessa soma foi garantida por pessoas que antes dele receberam esses ensinamentos de outros também valorosos.

Flávio escreveu O Poderoso Arlequim, produto de pesquisa e dedicação. E acaba de lançá-lo. O romance, esforço e fé na conquista do sonho, vale a leitura.

É questão de repetir: É de seus direitos que sobrevive o homem. Que venham muitos bons escritores. E que se lembrem de valorizar as instituições que nos mantêm fortes, em família, com fé nos bons preceitos morais e éticos, e gratidão aos bons educadores.

Cecilia Ferreira é jornalista e escritora, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e da AAL (Academia Araçatubense de Letras).

PRIMAVERA


Antonio Luceni


Há um tipo de primavera, aquela flor bastante popular que encontramos nas casas de ricos e pobres, enfeitando caramanchões luxuosos e pequenas latadas (é assim como são conhecidos em áreas pobres) que, não sei por que nem para que, causa-me emoção ao vê-la.

Aí, caí na besteira de partilhar dessa impressão com um amigo, o Fernando Batalha. Ele se esborrachou de rir. “Onde já se viu, ficar emocionado com uma planta?”. Na hora, ri junto com ele e, agora, toda vez que passo diante de uma primavera, lembro-me da situação. (Assim como os campos de trigo de “O Pequeno Príncipe”, a mim me são as primaveras).

Depois, fiquei matutando sobre a situação. As emoções, sentimentos e sensações estão à nossa volta o tempo todo e não os percebemos. Também, parece, que há que se sentir e ver determinadas coisas e ficar com elas guardadas, no processo de ruminação a que nós, animais racionais, não estamos acostumados.

Uma outra ideia me veio à mente: a de que o que pode parecer significativo para mim, não o é para todos (grande descoberta, não é mesmo?!). Pode até ser óbvio demais, mas na prática, não é assim que funciona. Por vezes queremos impor uma estética ou um padrão de cultura, de literatura, de cinema, de música, de dança, de teatro e de outras tantas expressões que, por mais bem-intencionadas que sejam, às vezes não correspondem às expectativas do fruidor.

Desse modo, quem sabe, há que se ter em mente, então, que o “cardápio estético” deve ser variado, que os “sabores” postos à mesa devem ter lá seus amargos e doces, azedos e ácidos, traventos e gelatinosos para poderem satisfazer aos mais diferentes e exigentes paladares. (Por mais que queiram fazer-nos descer goela abaixo temperos indigestos).

Um pássaro voando, uma criança dormindo, um mendigo sob o sol ou frio castigador, pitanga chupada no pé, (jabuticaba, quem sabe?), pisar sobre gramado verde, sentir cheiro de terra em começo de chuva, arroz queimadinho no fundo da panela, uma risada gostosa... quantas coisas são possíveis de provocar nossa sensibilidade? Quantas ações são deixadas cotidianamente e que, certamente, causariam impacto em nossas vidas, fazendo-nos perceber o mundo melhor e contribuir com ele, com nossos semelhantes, com a vida, então?

Fico assim, como gato a perceber a presa. De olhos fitados no mundo, querendo absorver tudo, preciso de todos! E quantas coisas me emocionam. Quantas coisas também, por mais sutis que fossem, me fizeram sair do lugar, pegar num telefone, mandar um e-mail, dizer “eu te amo”, “tô com saudades de você”, “você é importante pra mim”.

É isso, então: vamos educar o olhar, educar o ouvido, educar o paladar, o tato, todos os sentidos. Quanto mais estivermos sensíveis para as coisas do mundo – por mais bobas que elas pareçam ser – também mais produtivos estaremos em nossa relação com o outro, com o meio, com tudo que está ao nosso entorno.

E tudo isso porque uma primavera me emocionou.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor. Diretor da União Brasileira de Escritores – UBE.